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Importações seguem de vento em popa
18/07/2008 - Cláudia Safatle

A elevação da taxa de juros este ano em pouco ou nada afetou o ímpeto de crescimento das importações, que aumentam em todas as suas vertentes, dos bens de consumo a máquinas, equipamentos e plantas inteiras usadas. Do lado do Comércio Exterior não há, por enquanto, qualquer sinal de desaceleração decorrente do novo ciclo de aperto monetário - que elevou em 1 ponto percentual a taxa de juros básica e produziu aumento de mais de 2 pontos percentuais nos juros futuros - seja pela redução da demanda doméstica com liberação de excedentes para exportação, seja por redução da demanda por bens comprados no exterior.

A elevação da meta de exportação este ano, de US$ 180 bilhões para US$ 190 bilhões, conforme anunciada recentemente pelo secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, se deve ao aumento de preços internacionais e não por crescimento das quantidades. Segundo ele, olhando pelo lado das importações para viabilização de novos investimentos, também não há qualquer indício de redução.

A pauta de importação é composta de matérias-primas (48,5%), bens de capital (20,5%), bens de consumo (12,5%) e combustíveis e lubrificantes (18,5%). Nos primeiros seis meses deste ano, comparados ao mesmo período do ano passado, o crescimento das importações de matérias-primas (e intermediários) foi de 46,4%; combustíveis e lubrificantes, 82,7%; bens de consumo, 42,9% (sendo 63% de aumento das compras de bens duráveis e de 23,9% de bens não-duráveis); e de 48% de bens de capital.

Os dados também não apontam para uma substituição de bens produzidos internamente por importados. Barral cita que o uso da capacidade instalada na indústria de material de transportes era de 93% ao final de junho, de 92,2% na indústria de celulose e de 92,4% na metalurgia. De modo geral, o uso da capacidade na indústria no fim do primeiro semestre, era de 86,4%, nível elevado que induz as empresas a fazerem novas plantas para aumentar a capacidade.

A política monetária tem um espaço de tempo de três a seis meses para se refletir na demanda agregada, segundo o Banco Central. Apesar de não haver um estudo mais acurado sobre os efeitos de uma restrição monetária sobre o Comércio Exterior, o secretário avalia que para a elevação da taxa de juros chegar ao Comércio Exterior, é preciso esperar uns dois meses a mais. Ou seja, entre a elevação da Selic e uma desaceleração das importações ou aumento das exportações, seriam necessários de cinco a oito meses. Em tese, diz Barral, primeiro os juros afetariam a demanda por importações de bens de consumo e, um tempo depois, causaria algum impacto sobre as importações de bens de capital e insumos, necessárias ao investimento.

Elevação dos juros ainda não reduziu investimento

Há, hoje, uma situação que se difere sensivelmente dos ciclos de aumento de juros do passado, identifica o secretário de Comércio Exterior: a economia cresce de maneira consistente e o governo fez uma série de desonerações de impostos para investimentos. Diante disso, e tendo em vista a expectativa de aumento do consumo futuro, as empresas que traçaram seus projetos de ampliação não vão deixar de implementá-los por causa da Selic, acredita.

É esse cenário que leva o setor privado a pleitear, junto ao Ministério do Desenvolvimento, cada dia mais autorizações para importar máquinas, equipamentos ou mesmo plantas inteiras de fábricas usadas. Em 2006, foram 15 mil pedidos, no ano passado, 23 mil, e este ano estes devem bater na casa dos 30 mil. "Em nove meses conseguimos transferir uma fábrica inteira de locomotivas da GE dos Estados Unidos para o Brasil", conta o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge.

Além da concessão de um leque de incentivos fiscais para investimentos, há ainda, a favor das empresas que estão ampliando a capacidade de produção, o fato de que estão altamente capitalizadas - o grau de endividamento no Brasil é bem menor do que o de outros países. Além disso, se precisarem de financiamentos, podem recorrer ao mercado externo ou ao BNDES, cuja taxa de juros de longo prazo, a TJLP, é de apenas 6,25% ao ano (que em comparação com a Selic, de 12,25% ao ano, representa um generoso subsídio do governo ao setor privado).

Por esse conjunto de evidências, Miguel Jorge e Barral argumentam que o novo ciclo de aperto da política monetária, que começou em abril e deve prosseguir nos próximos meses (na próxima semana há nova reunião do Comitê de Política Monetária , o Copom) não deverá implicar redução ou adiamento dos planos do setor privado para aumentar a capacidade instalada. Nesse sentido, eles compartilham da mesma expectativa do economista Regis Bonelli, que em entrevista ao Valor, disse considerar essa rodada de aumento dos juros mais eficiente para debelar o atual surto inflacionário do que negativa para os investimentos.

Enquanto as exportações cresceram 24,8% no primeiro semestre, frente ao mesmo período de 2007, as importações correm a 52%. Diante dessa assimetria, é possível imaginar que já em 2009 a balança comercial apresentará déficit. Barral não arrisca afirmar nem que sim, nem que não. Apenas pondera que isso dependerá do que ocorrer com os preços das commodities no ano que vem e da capacidade das exportações brasileiras se manterem competitivas (mesmo com a taxa de câmbio valorizada). No início do ano, quando o governo anunciou a meta de exportar US$ 180 bilhões, lembra ele, teve muita gente que achou que isso era impossível. "E agora já revimos a meta para US$ 190 bilhões", comenta.

Se, desta vez, o aperto monetário for eficaz para combater a inflação sem prejudicar os investimentos, estará ocorrendo uma situação bem distinta da de 2005, quando a elevação dos juros derrubou a formação bruta de capital fixo para míseros 3,63%.

Fonte: Valor Econômico

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